Esta noite eu não consegui pregar os olhos. Não dormi um minuto sequer. Virei de um lado a outro no colchão de casal que estirei no chão da sala, esfregando os pés no lençol e torcendo para ser acometido por um sono pesado que me arrebatasse. Inútil. Só me restou a companhia das lagartixas, que promoveram verdadeira algazarra no teto. Pelo menos tive distração. Esse negócio de contar carneirinho comigo não cola. Prefiro fazer planos para um futuro próximo, porque o futuro distante me parece inatingível. Ando com essa mania de só levar em conta aquilo que preciso fazer no dia seguinte. A semana ou o mês seguinte não me interessa. Se me ponho a pensar para muito além do presente, caio num poço de anseios terrível, que me tira definitivamente o chão. Tenho medo de fazer muitos planos e decepcionar a mim mesmo. Isso é uma babaquice, admito. Mas, fazer o quê?
Hoje, enquanto eu esperava pela chegada de pães frescos no supermercado, pensei em como não sou uma pessoa difícil, mas como também não sou fácil. Sou raso de tão profundo. É isso! Ou melhor: De tão profundo, chego a ser raso. Sei lá! Dá na mesma! Tudo o que eu escrever aqui deporá contra mim mais tarde. Portanto tenho de tomar cuidado. Mas não pretendo bancar o covarde. Minha cabeça funciona sem parar – a mil por hora, para empregar um clichê. (Vou fechar a janela porque os pernilongos estão invadindo o quarto.) Pronto. Eu dizia que sou raso de tão profundo, e que meus pensamentos me obsedam. Principalmente meu medo da morte. A sensação de que a morte me cerca causa-me pavor. Vou usar de outro chavão gigantesco: Sou jovem demais pra morrer velho. Ou seria o contrário? E escrever? Escrever é viver, ou é uma maneira bem estúpida de fugir à vida? Eu sinceramente não sei. Só sei que preciso me manter atento, para não me calar de uma vez por todas. Isso seria muito ruim. Também preciso cuidar para não me viciar em diários. Diários me assustam. Diários me parecem invariavelmente um ato desesperado. Morte aos diários!
(Eu espero não estar compondo diário).
Sabe o que eu queria mesmo? Eu queria escrever muito, todos os dias, e nunca ler o que escrevi. Isso seria a glória! Melhor que isso, só mesmo sentir que estar vivo é a mais natural das situações. Eu odeio sentir que me arrasto por aí! Que viver não “é”, e sim “está sendo”. Nada pior do que isso.
09/12/2006

